domingo, 27 de março de 2011

Memórias de Amargosa - Parte 3




Estou de volta à estrada da memória, em busca de uma Amargosa que preencheu minha infância e boa parte da adolescência, iluminando os mais inocentes dias da existência. E me vem o Jardim, ou a Praça do Jardim, ou oficialmente Praça Lourival Monte. O mais visitado ponto turístico da cidade e talvez uma das praças mais bonitas deste país é imagem marcante da história de Amargosa, e da minha também. Como esquecer a televisão coletiva, instalada próxima ao coreto, lado oposto do obelisco? Todas as noites, várias pessoas se reuniam para acompanhar telenovelas, telejornais e filmes numa pequena TV que ficava dentro duma caixa numa torre repleta de propagandas de empresas da cidade. Seria impensável nos dias de hoje assistir TV no meio da rua em meio ao barulho ensurdecedor provocado pelo volume alto do som que vem dos carros de inconvenientes proprietários. Em frente à “torre da TV”, estava o saudoso supermercado Olhepreço, ao lado da bomboniere de Zé Correia, próxima do ponto que abrigou a então pequena agência do Bradesco, no início da década de 80. Subindo em direção à Praça do Cristo, lembro-me dos grandes casarões que sediaram lojas e igrejas, onde hoje funcionam a Insinuante e a Guaibim. Ao lado delas, a casa de Dona Zilda era vizinha de um ícone da cidade: o supermercado Irmãos Vaz. O grande concorrente do Olhepreço (grande só na vendagem...) era pequeno, mas muito aconchegante, onde se encontrava de tudo, inclusive lâmpadas de 110 volts (na época, o único lugar em Amargosa que as vendia). Na seção de doces, havia uma espécie de gôndola circular, onde se encontravam todas as guloseimas possíveis e desejadas por uma criança. Ainda me lembro dos sacos de papel marrom, com o logotipo do supermercado em vermelho e azul. Subindo um pouco mais, ao lado do barracão de farinha, estava a sede da Cooperativa Agropecuária. A Alatan, tão tradicional, sempre esteve onde hoje está: modernizou-se, mas manteve a bela arquitetura da sua fachada. Voltando às cercanias do Jardim, lembro-me do período em que a Câmara Municipal funcionou por ali, fazendo divisa com o armazém de Josué Melo. Descendo a rua, na esquina já funcionou a EBDA, onde hoje restam escombros da velha casa que foi derrubada. Mais adiante, a Lira Carlos Gomes, das festas da escola, dos grandes aniversários, da festa de Bodas de Prata de meu tio Luiz e tia Margarida. As grandes árvores (que hoje não mais existem) entre a Lira e a Prefeitura foram testemunhas dos “babas” que jogávamos quando saíamos mais cedo das aulas no Santa Bernadete. O gol ficava na garagem da Lira, e além de driblarmos os adversários, tínhamos de fazer o mesmo com as fartas raízes que arrombavam o velho calçamento. A Prefeitura, de largos corredores e inconfundível piso de madeira, fez parte de parte da minha infância, onde aprendi a gostar de cafezinho e onde esperava meu pai depois da escola. Ali foi instalado o provavelmente primeiro computador da cidade, o que na época pra mim não passava de uma máquina datilográfica com televisão. Em frente ao centenário cacto “descabelado”, a Catedral sempre foi figura imponente, marcante, muito admirada por mim, mas, a bem da verdade, por mim também pouco frequentada. Ainda lembro o Banco do Brasil funcionando nos dois andares do seu prédio, as grandes filas e os muitos caixas, e na frente uma plaqueta próxima ao cruzamento com os dizeres: “Não corra, não mate, não morra”, da qual nunca esqueci. Do outro lado da rua, a moderna fachada do então Baneb (hoje Bradesco) contrastava com o estilo mais sóbrio do banco ao lado. No Baneb, de filas não menores, lembro das cadernetas de Poupança (eram cadernetas mesmo!), onde anotávamos todo mês os rendimentos da famosa “Poupança Baneb”. Tempos de inflação e desvalorização da moeda, quando os “porquinhos” não tinham vez. Na Rua do Ribeirão, lembro do estridente canto de uma araponga, que durante anos foi a trilha sonora dali. Lá estava o movimentado posto da Telebahia, onde três cabines telefônicas ligavam Amargosa ao mundo, amigos e parentes, como meus tios e suas filhas, que se falavam sempre aos domingos à noite. Mais adiante, ficava a Delegacia Educacional (antepassada da DIREC), em que minha mãe trabalhava, onde também funcionou o MEB, ao lado do silencioso Seminário Menor, que abrigou meu pai e lhe ofereceu fabulosa base educacional até a universidade: se ele fosse mais adiante nesse caminho, hoje eu não estava aqui... Não posso esquecer Dona Maria, sempre sorridente e serena, sentada na porta do Seminário, lembrando dos tempos de meu pai e seus colegas, entre eles Dom João Nilton. Em frente, a Sede Paroquial, palco de grandes festas, jogos na esquecida quadra dos fundos e, também, do primeiro estabelecimento no qual lecionei em Amargosa: um curso pré-vestibular idealizado e organizado pelos estudantes, que levou a maioria deles para as principais universidades do estado. Descendo mais um pouco, na famosa “Rua do Buraco”, está o Estádio Municipal, onde tive meu primeiro contato com uma partida de futebol de verdade, onde jogaram Vitória, Bahia, Seleção de Amargosa, entre outros, e onde ousei jogar em um campeonato de juniores, no distante ano de 1990, se não estou enganado. Em frente, a primeira locadora de vídeo da qual me lembro por aqui: a locadora de Jonga, através da qual descobri que os filmes que ainda não passavam na TV eram geralmente legendados, o que causava uma certa frustração. Indo em direção contrária, rumo à “Rua do Malmequer” (atual Gilda Ferreira), onde hoje estão a Creche Tia Rachelzinha e a UAB – Universidade Aberta do Brasil, ficava a AMEC, de Dr. São Paulo, a clínica mais movimentada da região. Ao lado, a Escola Criação, onde meu irmão estudou e de cuja equipe orgulhosamente hoje faço parte. Quase em frente, ficava o CEA – Centro Educacional de Amargosa, onde estudei por dois anos, antes de ir para o Santa Bernadete. Lembro-me do campo de terra ladeado por eucaliptos, onde atrás ficava uma plantação de mamona, munição para os recreios mais agitados, da casinha, da piscina, da quadra, dos corredores apertados e da cotadíssima casa na árvore. Subindo a rua, já na esquina, fica o Sindicato Rural, hoje aparentemente fechado, onde meu pai também trabalhou, e onde havia atendimento do dentista Fernando Paraguassu aos sindicalizados. Voltando em direção ao Jardim, lembro da Amavel, a primeira agência de venda de carros da cidade, ao lado do depósito do Olhepreço. De volta ao jardim, das indefectíveis esculturas verdes nos arbustos, do imponente obelisco, dos requisitados banquinhos onde tantos de nós deram seus primeiros passos nas armadilhas do amor, brilha o coreto. O irradiador de beleza, que presenciou tantos anos e tantos fatos da nossa história, que lembro ter sido palco de uma bela Orquestra Sinfônica nas comemorações do Centenário da Cidade, continua impávido e imponente, invisível para tantos que não reconhecem nele a sua importância, que não conseguem enxergar a sua beleza. À sombra do nosso “Partenon”, descanso de mais uma viagem, recobrando forças para mais andanças. Até a próxima!

10 comentários:

  1. Parabéns, André, por estes preciosos textos.Eles nos fazem "viajar", trazendo-nos saudades e agradáveis lembranças...
    Estas "memórias de Amargosa" são importantíssimas para o resgate e preservação da história da nossa querida cidade.

    Eliane e Miguel

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  2. Saudosismo, nostalgia, hummm... saudades da minha doce infância que de certa forma tem algo parecido com a sua também amigo André, aqui em Jequié, lembro da velha praça rui barbosa onde existia uma "torre de tv" com propagandas entre outras coisas maravilhosas, viveu de maneira feliz quem participou das grandes coisas nos anos 70 e 80.

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  3. André, mais uma vez tenho que elogiar o texto, que, além de estar muito bem redigido traz lembranças muito agradáveis.
    Eu sou apaixonada por Amargosa, por isso, quando leio suas "andanças" sobre a história dessa minha amada, o sentimento é de pura alegria.
    Achei massa a sua passagem pela Cabine telefônica, onde várias vezes tive que ir com minha mãe, mesmo sem vontade, pra falar com minhas tias; de D. Maria que ficava ali no Seminário, eu nem lembrava mais dela, mas me recordo que era quase que religiosa a minha condição de cumprimentá-la todas as vezes que ia pra casa; o estádio de Amargosa, que por um acaso fica ao lado de minha residência, que sempre encheu nossa paciência, pq as bolas caiam no quintal e quebravam o telhado da casa (rs...); o cursinho onde vc ensinou, que por um acaso foi meu professor, e eram as únicas aulas que eu NUNCA perdia, pq adorava literatura brasileira e por ultimo a lembrança do CEA, escola que só me deu alegrias.

    Meus parabéns! Espero que na continuidade sobre a Memória da Historia de Amargosa, você relate sobre os políticos, prefeitos, vereadores que a cidade já teve e manifestou representatividade positiva nessa cidade linda!

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  4. parabens queridissimo prof. André pelo seu maravilhoso texto, que realmente nos faz viajar no tempo com suas recordações e ricas observações. Não sou destes tempos, mas nao pude perder a oportunidade de parabeniza-lo.

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  5. Meu amigo,

    Essa nostalgia está em todas as cidades. Tudo tem se tornado perigosamente homogêneo. Um item comum à cultura de todas as cidades (pelo menos na Bahia) é o carro de som com músicas de gosto bastante questionável. Mas seu texto não é só uma expressão do romantismo telúrico. É um objeto de militância pela preservação do patrimônio cultural.

    Um abraço.

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  6. Por acaso descobri seu blog fazendo uma pesquisa no google e adorei ler essas lembranças que também fazem parte da minha história.
    Foi muito bom recordar das cabines telefônicas - meu esconderijo favorito! rsrsrs
    D. Maria era um doce! Adorava conversar com ela e brinquei muito nos jardins do seminário.
    Muito bom o blog!
    Vou acompanhar sempre.

    Um abraço

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  7. Sou fã, fato. Gostei demais dessa sequência de postagens justamente por não ter recordações da Amargosa desses anos. Se, para quem viveu é muito bom recordar, resgatar fatos e "fotos" guardadas no canto da memória; para quem, como eu, não possui recordações dessa época é muito, muito interessante mesmo saber um pouco mais de como era, comparando como está hoje. Saber ainda, o porquê dos nomes de algumas ruas e de forma mais sólida a história dessa nossa cidade. Acho interessante também, a forma como escreve, um jeito de falar do cotidiano de forma tal que dá vontade de está ali, tamanha importância que dá aos fatos. Agradeço e mais uma vez parabenizo.

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  8. Ô André!..fiz um vôo rasante por todos estes locais e ainda recuei mais no tempo, já que tenho muito mais tempo "de estrada"que você.Como eu morava no "Curiachito", bem em frente ao jardim, esta Praça L.Monte era como a extensão lá de casa.Quantas brincadeiras neste local que, com tanto colorido e perfumes, parecia mais o paraiso. Havia muitos canteiros localizados ao lado da Moreira Coelho completamente cobertos por dálias de várias cores que era uma festa para centenas de borboletas e para a gurizada correndo atrás destes pobres seres, inclusive eu; depois era a busca pelos esconderijos por entre as topiarias dando um toque de westem, como os cowboys vistos no cinema de "seu Zezinho". Era muito bom poder correr livremente por entre as ruas do jardim, se esconder na casinha do guarda na hora da picula, usar as pilastras jônicas para brincar de cantinho,cantinho, esperar os cachos de licuri ficarem maduros; só não era bom quando, no carnaval, as caretas cercavam a gente por aqueles labirintos e aí era um "Deus nos acuda"de gritos e correrias. Também já andei muito pelo corredor assoalhado da Prefeitura (5,6 anos até adolescência ou um pouco mais)pois meu pai tambem trabalhou muitos e muitos anos lá. Era muito legal, às tardes, sentarmos na larga escadaria que ia dar no quintal e ficar ouvindo histórias de "vovô Antonio",que era porteiro, bisavô da atriz Emanuele. E por aí vão as imagens muito vivas passando por nós, à medida que você vai trilhando sua estrada de memória.

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  9. Poxxa André, seu post me lembrou da epoca em que meu pai ia trabalhar em Sai Paulo e tinha que ir com minha mãe à cabine da Telebahia para falar com ele é matar a saudade. Foi muito bom tbm o tempo estudado nos colégios CEA, Santa Bernadete onde era a diretora Silvandira quem dava as diretrizes, no Colégio Pedro Calmon.
    Lembro também que Amargosa sempre foi rota interessante para circos e parques que faziam minha infancia mais colorida.
    Como esquecer também das feiras Agropecuárias com disputas de montarias memoráveis, lembro de um ano que foi um locutor que tinha um cavalo que se ajoelhava aí tocar o hino nacional.
    Boas lembranças e ótimas recordações de uma cidade que não vive mais um glamour e esplendor por falta de vontade política, ganância e egoísmo daqueles que dirigiram a cidade nos últimos anos.
    Desejo que a cidade volte ao seu rumo, não ao passado pois o que passou foi bom, mas o futuro sempre será melhor.

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  10. consegui ate ouvir a araponga quando li seu relato, estudei no CEA e ouvia ela todos os dias, tempos incríveis, tinha medo da piscina kkkk, as lembranças são tao fortes que chegam até a doer

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