terça-feira, 1 de março de 2011

Memórias de Amargosa - Parte 2




A viagem pelas minhas memórias de Amargosa continua. E retoma seu caminho justamente pela antiga Estação Rodoviária, que ficava no Bosque, no prédio da também antiga Estação Ferroviária. Eram os tempos da empresa de ônibus Viazul, com seus veículos “Bumerangue”, que traçavam os caminhos daqui a Salvador. Uma agência apertada dentro da velha estação, sem muito lugar pra sentar, dividindo espaço com um salão de beleza e uma emplacadora de veículos. Mais tarde a velha estação abrigaria também a Cesta do Povo e a Biblioteca Municipal, cuja sede original havia sido demolida junto com o Instituto Mauá e o Lions Clube, para dar espaço a um vazio utilizado quatro ou cinco dias por ano no São João. Lembro dos trilhos ainda cortando o Bosque, como uma herança da linha de trem que não cheguei a ver, uma frustração que nunca será compensada. Caso alguém ainda não saiba, essa linha batizou a famosa "Rua da Linha", que ainda hoje liga a região do Bosque à saída da cidade. Eu não nasci “há dez mil anos atrás”, mas estava na cerimônia de plantação do novo Jequitibá, logo atrás do hoje sumido “L” do Lions, que repousava sobre o tronco do velho Jequitibá, morto por um raio. Por falar em “sumiço”, do Bosque ainda me vêm à lembrança os bancos de pedra, disputados quase a tapa em dias de festa ou sábado à noite, quando a cidade se convergia para o agito da arborizada praça, cheia de pessoas e carros, com a presença destacada do quiosque da Ki-Delícia que depois virou Ramone Sorvetes. Quando criança, adorava ler o que estava escrito nos bancos, e chegava a saber boa parte dos benfeitores que haviam contribuído para o lazer coletivo dos amargosenses. Como não lembrar da Pizzaria Tropical, de Dona Valda e seu Cézar, que fazia encher a Pousada do Bosque aos sábados e domingos à noite? Uma pizza realmente maravilhosa, que começou a ser servida num espaço pequeno, na Avenida Abelardo Veloso, mas precisou ir para um lugar maior. Ali próximo, tempos depois, o “point” foi a Qui-Doce de seu Reizinho, com doces (pudera, né?), salgados e sucos para todos os gostos. Aliás, o Bosque sempre foi pródigo em oferecer à população de Amargosa as maiores atrações gastronômicas: prova disso foi o Berimbau, que reinou absoluto por ali durante anos, servindo um cardápio variado, mas na minha infância não havia outra coisa melhor: os sorvetes da Kibon, que no domingo à noite eram sempre muito bem vindos. Atrás da antiga estação, o destaque sempre foi a “Centflora Drinks”, ou o popular “Bar do Osmar”. Lembro de meus pais falando das noites de boate, do grande movimento de pessoas e eu correndo naquele grande salão cercado por mesas e cadeiras de madeira. Tempos do renomado Colégio Pedro Calmon, repleto de estudantes de Magistério e Contabilidade, que promoviam a cada fim de ano grandes festas de formatura, movimentando toda a cidade. O auditório do colégio já foi palco de inúmeros shows de calouros, desfiles de moda, festas de escola... E até hoje encontramos lá aquelas cadeiras daqueles tempos... Pertinho dali, não esqueço do armazém de seu Adelino Lourenço e seus Del-Reys, de que tanto gostava. Outro local de que não dá pra esquecer é o saudoso Alvorada Tênis Clube. Lembro das catracas que controlavam a entrada, do grande salão onde tantas vezes apresentei números para a escola, onde me “formei” em Alfabetização pelas mãos da pró Lígia, lembro dos shows, como o de Geraldo Azevedo, dos desfiles de miss e dos torneios esportivos que lotavam as acanhadas arquibancadas do velho clube. Vôo Livre, Moka, entre tantos outros times me impressionavam, quando o vôlei era preferência municipal. Anos depois, o clube, já em decadência, fechado, serviu de espaço para os “babas” de todas as tardes, nas férias, onde jogávamos descalços ao sol das três da tarde, causando grandes bolhas nos pés diariamente. Mas não desistíamos. A quadra era pequena, mas lisa, ótima para jogar, o grande problema era quando a bola caía do lado do Colégio Pedro Calmon. Por fim, marcante era para mim também a imponência dos velhos casarões da Suerdieck, que guardavam histórias de um tempo próspero e distante, enquanto eu jogava bola no pequeno jardim em frente ao “L” do Lions ou ia à academia de Pró Silvana ensaiar para as festas da escola. Ah, bons tempos! A memória vem aos poucos. Continuo tentando lembrar dessa terra querida, num tempo em que a noite era um perigo apenas para aqueles que tinham medo da escuridão. Mais lembranças virão por aí. Até a próxima!

6 comentários:

  1. Meu velho, confesso que ainda não tinha acessado o blog, mas agora serei um transeunte assíduo... O relato saudoso que dá corpo ao texto traz respostas às minhas digressões sobre como era esta cidade em tempos bem pré-UFRB. parabéns pela crônica!

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  2. Muito bom!

    Jaqueline.

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  3. As memórias cada vez mais impressionantes, Dé. :)

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  4. nossa!!!! que viagem ao tempo!!!!
    você foi fantástico... adorei
    relembrar da coisas coisas da minha infância!!!
    ah!!! faltou o sorvete que era vendido na garagem da casa de Dra Ana ( a dentista), rsrsrs era muito bom!!!!

    edna peixoto

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  5. OLÁ, estava aqui eu procurando alguns inscritos do bosque, pois irei escrever um artigo sobre ele,gostei da materia, e tirei uma dúvida, ou fiquei com mais duvidas ainda, o L eu soube que era da lembrança do Jequitibá, e vc falou que era do Lions. Vc tem mais matéria sobre o bosque ou sobre o Cine Theatro Pérola, o cinema que houve aqui em Amargosa? tenho já algumas matérias sobre o cinema,caso tenha entre em contato pelo e-mail: jo_pedagogia.ufrb.cfp@hotmail.com

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  6. sensacional,boas lembranças.

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