sábado, 21 de janeiro de 2012

Memórias de Amargosa - Parte 4



Dedico este capítulo das “Lembranças” aos eventos da Cidade Jardim. A começar pela exposição agropecuária no Parque de Exposições, um acontecimento cujo porte nunca foi superado por aqui. Eram vários dias de “Exposição”, onde havia, além de animais para leilão e desfile, stands de todo tipo, tratores, automóveis, roupas, produtos agropecuários, além, é claro, das festas, com muitas barracas de comes e bebes. Naqueles dias podia se respirar um ar mais cosmopolita, afinal a cidade se enchia de pessoas de fora, a grande maioria a negócios, e ao contrário do que acontece nos eventos unicamente festivos de hoje em dia, a cidade se movimentava, porém de forma mais organizada e civilizada. Não é à toa que uma das nossas únicas fontes de pesquisa sobre Amargosa se originou de uma dessas exposições, a de 1978, quando foi editada pela COAMAR – Cooperativa Agropecuária de Amargosa uma revista sobre a cidade, “Amargosa Cidade Jardim”, falando sobre sua história e suas características gerais. Lembro que tudo o que estudei no Ensino Primário sobre Amargosa veio da famosa “Revista da Exposição”. Ainda no Parque de Exposições, inúmeras outras festas movimentaram a outrora pacata Cidade Jardim: Festa do Cavalo, Festa do Leite, além daquelas cujo título não me vem à memória... Pegando a carona do clima “rural”, como não lembrar a Festa de São Roque, no distrito de Diógenes Sampaio. Nos tempos áureos da festa, Amargosa “descia em peso” para o distrito, onde durante todo o dia a festa misturava a devoção religiosa com o apelo profano, com barracas de comidas e bebidas, brincadeiras para as crianças, e muita gente na praça. Lembro de um ano, não sei exatamente o qual, em que a atração que tocou no palco foi a saudosa Banda Orrico, com repertório de dar inveja ao das bandas de hoje, com direito a MPB e músicas de Carnaval (de boa qualidade!). Voltando para a sede do município, além das festas da Sede Paroquial e do Clube Alvorada Tênis Club, já citadas antes no texto anterior das “Lembranças”, faço aqui uma menção ao Night Dance Club, um ícone de uma geração inteira, que ficava no Cajueiro, onde num cubículo tanta gente se espremia para curtir a boate, ou onde Belchior presenteou alguns poucos heróis com a dádiva de sua música. Lembro também o Espaço Fest Show, que funcionou na Garagem da Viação Sanvete, na Katiara. Ainda na linha das festas mais pontuais, também marcou uma geração a Festa da Acerola, no Colégio Santa Bernadete, onde tive o prazer de estudar em 1990 e 1991, conhecendo figuras como Abacate e Seu Mário. A Festa da Acerola era um evento de destaque no calendário da cidade, e graças a ela, Amargosa passou a contar com uma considerável produção de acerola desde então. E em se tratando de eventos escolares, é com grande saudade que destaco os desfiles de sete de setembro. Era um tempo em que os desfiles do Santa Bernadete e do Pedro Calmon eram mais comentados e esperados que o São João! Ensaios, evoluções, fantasias... dia de chuva ou de sol, estávamos lá, desfilando para um público fiel, envolvidos na responsabilidade de representar o Colégio, o Brasil. Tempos em que disciplina não era artigo em falta nas escolas... e ninguém ficou traumatizado com isso! E agora, vamos às festas públicas. A começar pelo carnaval. Do tempo de criança, lembro do carnaval embalado pelo trio elétrico Jequitibá, ao som da Banda Orrico e da Banda Chá. Mais adiante, já na pós-adolescência (se é que isso existe), foi o tempo do carnaval antecipado. Foi aí que surgiu o Alkoolmania, um bloco que, junto com os amigos, fundamos em 1995, com apenas 12 almas. Em 1996, já com mais de 50, surgiu o mito: o penico do Alkoolmania. O instrumento mais democrático (e pouco higiênico, vá lá!) da história do carnaval de Amargosa: nele se misturavam todas as bebidas e todos, membros do bloco ou não, podiam desfrutar da louca miscelânea etílica que ali se manufaturava. O bloco ainda participou dos carnavais de 97 e 98. Logo depois, o carnaval antecipado deixou de existir, e o Alkoolmania permaneceu em estado de hibernação. Depois eu conto como ele acordou. Ainda sobre o carnaval, antecipado ou não, era uma festa de vários matizes, com o colorido das fantasias das caretas, o negrume dos assustadores “cão” (aliás, que se registre: aqui se chama assim: “os cão”, isso mesmo, sem concordância!) e o branco dos tempos em que ainda se jogava confete e serpentina. Antes de falar sobre o São João, abro espaço para falar de um evento que, de alguma forma, foi definitivo para a implantação de uma festa de São João na Praça do Bosque: a festa do Centenário de Amargosa. Em 1990, a prefeitura organizou uma série de festejos para comemorar os 100 anos de emancipação da cidade, com direito a quermesse, apresentação de Orquestra Sinfônica no coreto do Jardim (conforme já citado em texto anterior), além de uma série de shows na Praça do Bosque, no mês de junho daquele ano. Houve ainda a publicação de uma revista, a “Amargosa Centenária”, uma espécie de atualização daquela revista da Exposição de 1978, mas que, apesar de graficamente mais bonita, com mais fotos e informações, configurou-se como um festival de erros ortográficos e de diagramação. Valeu pela iniciativa de registrar o momento tão importante e oferecer mais uma fonte de pesquisa à população, tão carente disso até os dias de hoje. As comemorações do Centenário, cujo monumento comemorativo desapareceu do Bosque sem explicação, assim como o “L” do Lions, foram marcantes pela beleza, pela organização e pela iniciativa de trazer à cidade atrações de relevância para se apresentar em Amargosa. Em se tratando de festa, o nome Amargosa está intrinsecamente ligado ao São João. Essa festa mudou o rumo da história da cidade, antes exclusivamente ligada à pecuária e à agricultura, colhendo do turismo os frutos do desenvolvimento e do reconhecimento nacional. Antes de ter a estrutura que têm hoje, as festas juninas em Amargosa seguiam a tradição das visitas, as casas eram enfeitadas, à espera dos visitantes, no saudoso “São João de casa em casa”. Havia também grandes festas promovidas por algumas pessoas, como a não menos famosa festa na Fazenda de Seu João Ângelo, pertinho de onde morávamos, e cuja animação cortava a noite de São João. Eis que surgiu o São João de rua, que em Amargosa sempre teve na Praça do Bosque o seu referencial, a sua casa. Tanto, a ponto de se derrubarem, entre o final dos anos 90 e a primeira década do século XX, três prédios históricos da nossa cidade (a Biblioteca Carlos Cohim, o Lions Clube e o Instituto Visconde de Mauá) para não se construir nada do lugar, ou melhor, construir uma pista de dança, ou sei lá o quê, usada somente no São João pelos que vinham dançar. Mais recentemente, a Praça do Bosque foi inteiramente reformada, o que custou a vida de inúmeras árvores, resultando um espaço bonito, porém cheio de vazios. Paradoxo à parte, a impressão que ficou é de que foi um equipamento pensado para as grandes multidões, o que só acontece em Amargosa, convenhamos, durante o São João. A festa junina, produto de exportação amargosense, cresceu muito, garantindo à cidade renome nacional e até internacional, sendo alvo de reportagens na TV e em revistas de circulação nacional, além de documentários, como o “Viva São João”, dirigido por Andrucha Waddington e o “Amargosa do arrasta-pé ao axé”, dirigido e produzido por Vinícius Borges. Foi graças ao São João que o Alkoolmania ressurgiu, realizando sua festa junina desde 2004, reunindo aqueles que gostam de comemorar as festas juninas com tradição e alegria. Já escrevi alguns textos sobre o São João, sua evolução e também sua descaracterização. Pra falar a verdade, a festa dos dias atuais tem alguns pontos positivos, com a Vila Junina, a organização do evento, mas a apresentação de atrações caça-níqueis que nada têm a ver com o forró e a bagunça generalizada em que a cidade mergulha durante os dias da festa servem de aviso para se repensar alguns aspectos. O importante é que nunca se desvincule o São João, nosso patrimônio cultural, de suas raízes, de sua memória.
Final das festas, mas as lembranças ainda não acabaram, vem mais por aí: a viagem continua. Até a próxima parada!

4 comentários:

  1. Everton Luis Almeida de Lima22 de janeiro de 2012 01:36

    Diante deste texto, torno suas memórias às minhas! Os velhos tempos me enchem os olhos de lágrimas pelas lembranças outrora não afáveis, mas, ao mesmo tempo, fico entorpecido de tanta alegria, pois todos estes momentos líricos, de uma realidade não distante, fizeram parte de minha vida.

    ResponderExcluir
  2. Grandes lembranças... O que dizer do Espaço Fest Show, do qual voltávamos a pé, entre as valetas da rua escura sem nenhum tipo de iluminação e sem qual quer preocupação com a violência!? Bons tempos...
    Sem falar que no início dos anos 90 também havia, no Santa Bernadete, a Festa do Milho!
    Bom lembrar que, na Festa da Acerola, cada pessoa voltava para casa com uma muda de acerola, cultivada por nós alunos com tanto gosto nas aulas de horticultura do Professor Zelito.
    Marchava-se, Ensaiava-se exaustivamente, em turno oposto às aulas, sob sol ou chuva, trabalha-se na horta e nos jardins da escola e, como relatou André, ninguém ficou "traumatizado" com isso!
    Serve para reflexão...

    ResponderExcluir
  3. Grande André,
    boa viagem essa. Cada um tem suas memórias, mesmo não tendo vivido as mais distantes relatadas por você, me emocionei com as que me fizeram reviver momentos tão especiais. Quanto ao Night Dance Club, quando voltávamos era sempre com os sapatos sujos de cera vermelha, uma prova irrefutável da presença na noite anterior.

    ResponderExcluir
  4. André

    Pois é, diferente de Júlio, eu vivi tempos anteriores à André. Quantas saudades das grandes festas do Clube Alvorada. E só lembrando, antes do bloco Alkoomania existiu os Movidos à Álcool, criado pelos filhos de Eurípedes, Val Aranha e Tonga, diga-se de passagem que eu fazia parte da "diretoria". No meu tempo também havia grandes Festivais de Calouros, com direito a várias etapas e uma grande final. Neles foi que surgiu nomes como Gerson Orrico e Nísio do Banco do Brasil. Toda sociedade participava. E alguém aí é do tempo da Discoteca de Eduardo Sales? E da boate de Osmar? O interessate é que quando começou o Plano Cruzado, ele invocou em dizer que a partir daquela data não iria enriquecer as multinacionais e só iria vender caipirinha. Deu no que deu. (ass: Cláudio Rabelo)

    ResponderExcluir