quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Trilha Sonora

O Bêbado e a Equlibrista

Uma das mais belas composições da música brasileira, a canção de João Bosco ficou imortalizada na linda voz de Elis Regina. A letra traz referências ao tenebroso período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), suscitando torturas, exílios, entre outras atrocidades. Uma linda canção para nunca esquecermos de um período tão sombrio, para que nunca se repita. Afinal, como disse Mário de Andrade, "o passado é lição para refletir, não para repetir".

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Seja forte: defenda o mais fraco

Aos amigos que acompanham este blog, eis uma frase e uma imagem que sintetizam uma das principais razões da causa animal.


Esses meninos são um exemplo para toda a humanidade, apressada demais, muitas vezes incapaz de um gesto ou ação da qual possa se orgulhar ao fim do dia. Todos nós podemos fazer alguma coisa para diminuir o sofrimento e o abandono de milhares de animais mundo afora. Faça a sua parte: seja forte, defenda o mais fraco!

terça-feira, 24 de julho de 2012

Sintesis: poucas palavras, muito conteúdo


A diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites. Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência.
(Arthur Schopenhauer)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A importância da politização



Ao cidadão não basta acompanhar a política por um único meio de comunicação ou pelo disse-me-disse das ruas. É preciso haver responsabilidade, consciência ao difundir informações e no mínimo curiosidade ao escutá-las. Sim, responsabilidade em não transformar em mentira fatos verdadeiros e vice-versa e curiosidade em investigar se aquela informação dada condiz com a realidade.
Parece uma tarefa simples fazer tudo isso, mas não é. Primeiro porque neste país há um antigo costume de se repetir a mentira até virar verdade, graças aos interesses escusos de muitos meios de comunicação e da falta de memória do povo. Segundo porque paira no ar uma impressão de que busca por variedade de informações e pelo conhecimento são coisas sem valor, postas em prática apenas por intelectuais pouco afeitos à prática das situações cotidianas. Enquanto esses pensamentos perdurarem no Brasil, a politização continuará a ser uma bela utopia.
Politizar-se, portanto, não se limita a saber da vida dos políticos ou quanto ganham ou deixam de ganhar. É uma atividade constante, que exige do cidadão um cuidado especial em investigar sempre que possível quais projetos foram apresentados por quais políticos, quem votou a favor ou contra ações que beneficiariam ou prejudicariam a população, quem se envolveu ou apoiou políticos comprovadamente corruptos.
E mais um importante detalhe: a memória. Não nos esqueçamos de quem um dia roubou, desviou dinheiro, envolveu-se em escândalos, para que nunca mais volte à vida pública. Agindo assim, poderemos nos considerar um pouco mais politizados.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

“Ano de política”



2012 é mais um ano de eleições, não um “ano de política”, como muita gente fala. Até mesmo porque política se faz mesmo é diariamente, acompanhando as notícias, as ações dos governantes, a postura de parlamentares, membros do executivo, membros de partidos, discutindo ideias, enfim, participando efetivamente da vida política do lugar onde se vive.
No nosso país, porém, são muitos os que dizem não gostar de “política” e se limitam a dela participar com o seu “direito obrigatório” mais fundamental: o voto. Depois, esquecem em quem votaram ou se limitam a reclamar da ação (ou da falta de ação) dos seus candidatos em mesas de bar, em suas casas ou em conversas informais do cotidiano. Nada de acompanhar as sessões da Câmara Municipal ou mesmo ver a TV Câmara ou TV Senado (na verdade, o que parece é que maioria dos que compraram antenas parabólicas o fizeram apenas para ver melhor um único canal...).
O problema da expressão “ano de política” é que fica parecendo que só existe (ou só se faz) política no país de dois em dois anos! Assim, a população segue alienada, alijada do processo político, participando apenas do processo eleitoral. Cabe-lhe, então, só a escolha dos candidatos, muitas vezes motivada por interesses particulares ou informações distorcidas da grande mídia nacional.
Enquanto a população continuar se eximindo da efetiva participação política, os ocupantes de cargos eletivos continuarão livres para burlar as leis, desviar recursos públicos, não cumprir promessas de campanha, pois não serão cobrados por nada disso. Pelo contrário, têm certeza da impunidade dos seus atos e o pior: têm certeza da sua absolvição pelos eleitores, afinal retornam aos mesmos cargos nas próximas eleições “pelos braços do povo”, que já deu provas inequívocas de que tem memória curta. E a memória é essencial para se refletir sobre a política no Brasil, já que neste país não são poucos os governantes envolvidos em episódios de corrupção e mau uso de recursos públicos.
Esse quadro de omissão política do povo brasileiro só pode lhe trazer os piores resultados possíveis. Se quisermos ver mudanças verdadeiras na situação geral do país, precisamos buscar fontes alternativas de informação, variar a leitura de jornais e revistas, sites na internet e também os canais de TV e, de posse das informações, cobrar com mais veemência dos políticos a sua ação para a melhoria da coletividade. Como dizia o historiador inglês Arnold Toynbee, “o mal daqueles que não gostam de política é que serão governados por aqueles que gostam”.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Memórias de Amargosa - Última Parte

 
Eis que chego ao último capítulo dessa viagem pelas minhas lembranças da Cidade Jardim. O exercício da memória é incrível, pois resgata nossos sentimentos sensações, além de nos manter conscientes e mais críticos em relação ao futuro. Chegar ao fim dessa série de textos não significa dizer que as lembranças acabaram. Não, elas “deram um tempo”, ficam processando no subconsciente até adquirirem forma para estarem aptas a serem traduzidas em texto escrito. 
Nesses cinco textos sobre a história da minha querida terra adotiva, é impossível não perceber que algumas informações escaparam, deslizaram por entre os dedos da memória. E a intenção é justamente que os leitores se apoderem dessas falhas e consigam tecer seu próprio fio de lembranças, dialogando com as que expus aqui. Não foi meu objetivo enunciar verdades absolutas, mas apenas memórias, que se transformam ao sabor das emoções e, como não poderia deixar de ser, ao sabor do tempo. 
Neste texto quero lembrar de pessoas, e nesse particular sei que muitas ficarão de fora, não porque sejam menos importantes, mas tão somente porque aqui não caberia tanta gente... E, em se tratando de lembrar, não poderia deixar de começar esse percurso pelo meu Pai. Há pouco mais de cinco anos ele evoluiu para outro plano, deixando para mim muitas lições, histórias e lembranças. Divergíamos no campo ideológico, principalmente na política, mas dava gosto discutir política com ele. Aliás, dava gosto falar de qualquer coisa com ele, assim como estudar Língua Portuguesa com o melhor professor que já conheci, e que me inspirou ao caminho do magistério. Quantos “chiquinhos” e “fulustrecos” passaram por sua vida, e tantos deles ouviram expressões inesquecíveis como a “batata grossa” ou a impagável “boboca”... Sem contar as histórias, nossa, ouvi tantas, principalmente aquelas da época do Seminário, que eram as que ele contava com mais entusiasmo. 
Aprendi tantas coisas, e o melhor é que nossas diferenças são uma fonte de aprendizados, que perduram até hoje. Lembro dele no Bar de Seu Nenga, jogando Pif-Paf com Doutor Elizeu, Seu Nenga e Paulo Boca. Era uma aula de conhecimento geral! Ainda lembro de uma grande bordão de Dr. Elizeu ao se referir à preferência por beber o whisky puro, sem gelo, ao melhor estilo “cowboy”: “Os escoceses levaram anos pra tirar a água do whisky, e sou eu que vou colocar?” O melhor médico do planeta tinha razão! Todos eles devem estar jogando uma partidinha em algum lugar, colocando o papo em dia, e olhando pelos seus aqui na terra. 
Ao lado do bar de Seu Nenga, Seu Beto alfaiate, com sua simpatia e inteligência, junto a Seu Hermógenes (que continua nos brindando com sua arte e sua alegria) traziam histórias e faziam daquela vizinhança um lugar especial da cidade. Não posso esquecer de Doutor Nilson Lomanto, em seu indefectível jipe, desfilando sabedoria e amor à natureza. Cresci ouvindo de meu pai as histórias de Doutor Nilson da época do Colégio Pedro Calmon. São tantos os personagens de Amargosa que não estão mais neste plano espiritual, e não tenho a pretensão de lembrar de todos eles, mas deixo aqui a minha gratidão a todos aqueles que construíram a história desta cidade encantadora, que hoje se vê modernizada e experimentando as benesses e os problemas desse processo. 
À medida que Amargosa deixa de ser a cidade tranquila das portas e janelas abertas, aumenta a saudade de um tempo em que, apesar das limitações, podíamos contemplar o fluir calmo do tempo, numa paisagem intocada, típica do interior relatado nos livros. Boa parte dessa paisagem foi engolida pelo “progresso”: casas, lojas, repartições públicas... restam fotos nas mãos dos mais afortunados ou na memória dos mais sortudos ainda, que tiveram a chance de contemplar o desavisado espetáculo da cidade, nas suas formas mais simples. A fachada do Cine-Theatro Pérola, do armazém de Hugo Nogueira, a mercearia de Seu Joel antes do incêndio, a barraquinha de revistas de Seu Irineu são alguns exemplos de uma Amargosa que não existe mais, mas não se perde na memória de seu povo. Cabe a nós, no presente, fazer com que essa cidade não se perca de si, de seu passado, de sua riqueza histórica, das lições que ainda pode dar àqueles que nela vivem e que dela tiram o seu sustento. 
Por último, mas não menos importante, abro espaço para lembrar de duas pessoas que fizeram parte da minha vida em Amargosa e que, há pouco tempo, foram trilhar outros caminhos em outro plano. O primeiro, o inesquecível Padre Zé Silva, que tão de repente desapareceu do nosso convívio, deixando um legado de fé e honradez, e com uma privilegiada visão racional da vida e do universo. E, ainda mais recente, Seu Rufino deixou a vida na terra, deixando também o exemplo de pessoa íntegra, de imensa simplicidade e caráter irretocável. Pessoas como Padre Zé e Seu Rufino só trouxeram o bem a esta terra, e certamente estão marcados na sua história. 
Amargosa é uma cidade especial. Não bastasse sua arquitetura, suas ruas e praças belas e aconchegantes, sua rica (e ainda pouco explorada) história, tem um tesouro de valor imensurável: o seu povo. As pessoas de ontem, as de hoje e as que ainda virão são a sua maior riqueza. Cabe à nossa e às futuras gerações cuidar para que a memória desta cidade e das pessoas que ajudaram a construir sua história nunca se perca. A preservação da memória de Amargosa e do seu povo é um trabalho cotidiano de cada um de nós, e deve ser incentivado e valorizado constantemente, para que sempre tenhamos a possibilidade de conhecer o nosso passado, para assim cuidar melhor do nosso futuro.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Memórias de Amargosa - Parte 4



Dedico este capítulo das “Lembranças” aos eventos da Cidade Jardim. A começar pela exposição agropecuária no Parque de Exposições, um acontecimento cujo porte nunca foi superado por aqui. Eram vários dias de “Exposição”, onde havia, além de animais para leilão e desfile, stands de todo tipo, tratores, automóveis, roupas, produtos agropecuários, além, é claro, das festas, com muitas barracas de comes e bebes. Naqueles dias podia se respirar um ar mais cosmopolita, afinal a cidade se enchia de pessoas de fora, a grande maioria a negócios, e ao contrário do que acontece nos eventos unicamente festivos de hoje em dia, a cidade se movimentava, porém de forma mais organizada e civilizada. Não é à toa que uma das nossas únicas fontes de pesquisa sobre Amargosa se originou de uma dessas exposições, a de 1978, quando foi editada pela COAMAR – Cooperativa Agropecuária de Amargosa uma revista sobre a cidade, “Amargosa Cidade Jardim”, falando sobre sua história e suas características gerais. Lembro que tudo o que estudei no Ensino Primário sobre Amargosa veio da famosa “Revista da Exposição”. Ainda no Parque de Exposições, inúmeras outras festas movimentaram a outrora pacata Cidade Jardim: Festa do Cavalo, Festa do Leite, além daquelas cujo título não me vem à memória... Pegando a carona do clima “rural”, como não lembrar a Festa de São Roque, no distrito de Diógenes Sampaio. Nos tempos áureos da festa, Amargosa “descia em peso” para o distrito, onde durante todo o dia a festa misturava a devoção religiosa com o apelo profano, com barracas de comidas e bebidas, brincadeiras para as crianças, e muita gente na praça. Lembro de um ano, não sei exatamente o qual, em que a atração que tocou no palco foi a saudosa Banda Orrico, com repertório de dar inveja ao das bandas de hoje, com direito a MPB e músicas de Carnaval (de boa qualidade!). Voltando para a sede do município, além das festas da Sede Paroquial e do Clube Alvorada Tênis Club, já citadas antes no texto anterior das “Lembranças”, faço aqui uma menção ao Night Dance Club, um ícone de uma geração inteira, que ficava no Cajueiro, onde num cubículo tanta gente se espremia para curtir a boate, ou onde Belchior presenteou alguns poucos heróis com a dádiva de sua música. Lembro também o Espaço Fest Show, que funcionou na Garagem da Viação Sanvete, na Katiara. Ainda na linha das festas mais pontuais, também marcou uma geração a Festa da Acerola, no Colégio Santa Bernadete, onde tive o prazer de estudar em 1990 e 1991, conhecendo figuras como Abacate e Seu Mário. A Festa da Acerola era um evento de destaque no calendário da cidade, e graças a ela, Amargosa passou a contar com uma considerável produção de acerola desde então. E em se tratando de eventos escolares, é com grande saudade que destaco os desfiles de sete de setembro. Era um tempo em que os desfiles do Santa Bernadete e do Pedro Calmon eram mais comentados e esperados que o São João! Ensaios, evoluções, fantasias... dia de chuva ou de sol, estávamos lá, desfilando para um público fiel, envolvidos na responsabilidade de representar o Colégio, o Brasil. Tempos em que disciplina não era artigo em falta nas escolas... e ninguém ficou traumatizado com isso! E agora, vamos às festas públicas. A começar pelo carnaval. Do tempo de criança, lembro do carnaval embalado pelo trio elétrico Jequitibá, ao som da Banda Orrico e da Banda Chá. Mais adiante, já na pós-adolescência (se é que isso existe), foi o tempo do carnaval antecipado. Foi aí que surgiu o Alkoolmania, um bloco que, junto com os amigos, fundamos em 1995, com apenas 12 almas. Em 1996, já com mais de 50, surgiu o mito: o penico do Alkoolmania. O instrumento mais democrático (e pouco higiênico, vá lá!) da história do carnaval de Amargosa: nele se misturavam todas as bebidas e todos, membros do bloco ou não, podiam desfrutar da louca miscelânea etílica que ali se manufaturava. O bloco ainda participou dos carnavais de 97 e 98. Logo depois, o carnaval antecipado deixou de existir, e o Alkoolmania permaneceu em estado de hibernação. Depois eu conto como ele acordou. Ainda sobre o carnaval, antecipado ou não, era uma festa de vários matizes, com o colorido das fantasias das caretas, o negrume dos assustadores “cão” (aliás, que se registre: aqui se chama assim: “os cão”, isso mesmo, sem concordância!) e o branco dos tempos em que ainda se jogava confete e serpentina. Antes de falar sobre o São João, abro espaço para falar de um evento que, de alguma forma, foi definitivo para a implantação de uma festa de São João na Praça do Bosque: a festa do Centenário de Amargosa. Em 1990, a prefeitura organizou uma série de festejos para comemorar os 100 anos de emancipação da cidade, com direito a quermesse, apresentação de Orquestra Sinfônica no coreto do Jardim (conforme já citado em texto anterior), além de uma série de shows na Praça do Bosque, no mês de junho daquele ano. Houve ainda a publicação de uma revista, a “Amargosa Centenária”, uma espécie de atualização daquela revista da Exposição de 1978, mas que, apesar de graficamente mais bonita, com mais fotos e informações, configurou-se como um festival de erros ortográficos e de diagramação. Valeu pela iniciativa de registrar o momento tão importante e oferecer mais uma fonte de pesquisa à população, tão carente disso até os dias de hoje. As comemorações do Centenário, cujo monumento comemorativo desapareceu do Bosque sem explicação, assim como o “L” do Lions, foram marcantes pela beleza, pela organização e pela iniciativa de trazer à cidade atrações de relevância para se apresentar em Amargosa. Em se tratando de festa, o nome Amargosa está intrinsecamente ligado ao São João. Essa festa mudou o rumo da história da cidade, antes exclusivamente ligada à pecuária e à agricultura, colhendo do turismo os frutos do desenvolvimento e do reconhecimento nacional. Antes de ter a estrutura que têm hoje, as festas juninas em Amargosa seguiam a tradição das visitas, as casas eram enfeitadas, à espera dos visitantes, no saudoso “São João de casa em casa”. Havia também grandes festas promovidas por algumas pessoas, como a não menos famosa festa na Fazenda de Seu João Ângelo, pertinho de onde morávamos, e cuja animação cortava a noite de São João. Eis que surgiu o São João de rua, que em Amargosa sempre teve na Praça do Bosque o seu referencial, a sua casa. Tanto, a ponto de se derrubarem, entre o final dos anos 90 e a primeira década do século XX, três prédios históricos da nossa cidade (a Biblioteca Carlos Cohim, o Lions Clube e o Instituto Visconde de Mauá) para não se construir nada do lugar, ou melhor, construir uma pista de dança, ou sei lá o quê, usada somente no São João pelos que vinham dançar. Mais recentemente, a Praça do Bosque foi inteiramente reformada, o que custou a vida de inúmeras árvores, resultando um espaço bonito, porém cheio de vazios. Paradoxo à parte, a impressão que ficou é de que foi um equipamento pensado para as grandes multidões, o que só acontece em Amargosa, convenhamos, durante o São João. A festa junina, produto de exportação amargosense, cresceu muito, garantindo à cidade renome nacional e até internacional, sendo alvo de reportagens na TV e em revistas de circulação nacional, além de documentários, como o “Viva São João”, dirigido por Andrucha Waddington e o “Amargosa do arrasta-pé ao axé”, dirigido e produzido por Vinícius Borges. Foi graças ao São João que o Alkoolmania ressurgiu, realizando sua festa junina desde 2004, reunindo aqueles que gostam de comemorar as festas juninas com tradição e alegria. Já escrevi alguns textos sobre o São João, sua evolução e também sua descaracterização. Pra falar a verdade, a festa dos dias atuais tem alguns pontos positivos, com a Vila Junina, a organização do evento, mas a apresentação de atrações caça-níqueis que nada têm a ver com o forró e a bagunça generalizada em que a cidade mergulha durante os dias da festa servem de aviso para se repensar alguns aspectos. O importante é que nunca se desvincule o São João, nosso patrimônio cultural, de suas raízes, de sua memória.
Final das festas, mas as lembranças ainda não acabaram, vem mais por aí: a viagem continua. Até a próxima parada!

domingo, 27 de março de 2011

Memórias de Amargosa - Parte 3




Estou de volta à estrada da memória, em busca de uma Amargosa que preencheu minha infância e boa parte da adolescência, iluminando os mais inocentes dias da existência. E me vem o Jardim, ou a Praça do Jardim, ou oficialmente Praça Lourival Monte. O mais visitado ponto turístico da cidade e talvez uma das praças mais bonitas deste país é imagem marcante da história de Amargosa, e da minha também. Como esquecer a televisão coletiva, instalada próxima ao coreto, lado oposto do obelisco? Todas as noites, várias pessoas se reuniam para acompanhar telenovelas, telejornais e filmes numa pequena TV que ficava dentro duma caixa numa torre repleta de propagandas de empresas da cidade. Seria impensável nos dias de hoje assistir TV no meio da rua em meio ao barulho ensurdecedor provocado pelo volume alto do som que vem dos carros de inconvenientes proprietários. Em frente à “torre da TV”, estava o saudoso supermercado Olhepreço, ao lado da bomboniere de Zé Correia, próxima do ponto que abrigou a então pequena agência do Bradesco, no início da década de 80. Subindo em direção à Praça do Cristo, lembro-me dos grandes casarões que sediaram lojas e igrejas, onde hoje funcionam a Insinuante e a Guaibim. Ao lado delas, a casa de Dona Zilda era vizinha de um ícone da cidade: o supermercado Irmãos Vaz. O grande concorrente do Olhepreço (grande só na vendagem...) era pequeno, mas muito aconchegante, onde se encontrava de tudo, inclusive lâmpadas de 110 volts (na época, o único lugar em Amargosa que as vendia). Na seção de doces, havia uma espécie de gôndola circular, onde se encontravam todas as guloseimas possíveis e desejadas por uma criança. Ainda me lembro dos sacos de papel marrom, com o logotipo do supermercado em vermelho e azul. Subindo um pouco mais, ao lado do barracão de farinha, estava a sede da Cooperativa Agropecuária. A Alatan, tão tradicional, sempre esteve onde hoje está: modernizou-se, mas manteve a bela arquitetura da sua fachada. Voltando às cercanias do Jardim, lembro-me do período em que a Câmara Municipal funcionou por ali, fazendo divisa com o armazém de Josué Melo. Descendo a rua, na esquina já funcionou a EBDA, onde hoje restam escombros da velha casa que foi derrubada. Mais adiante, a Lira Carlos Gomes, das festas da escola, dos grandes aniversários, da festa de Bodas de Prata de meu tio Luiz e tia Margarida. As grandes árvores (que hoje não mais existem) entre a Lira e a Prefeitura foram testemunhas dos “babas” que jogávamos quando saíamos mais cedo das aulas no Santa Bernadete. O gol ficava na garagem da Lira, e além de driblarmos os adversários, tínhamos de fazer o mesmo com as fartas raízes que arrombavam o velho calçamento. A Prefeitura, de largos corredores e inconfundível piso de madeira, fez parte de parte da minha infância, onde aprendi a gostar de cafezinho e onde esperava meu pai depois da escola. Ali foi instalado o provavelmente primeiro computador da cidade, o que na época pra mim não passava de uma máquina datilográfica com televisão. Em frente ao centenário cacto “descabelado”, a Catedral sempre foi figura imponente, marcante, muito admirada por mim, mas, a bem da verdade, por mim também pouco frequentada. Ainda lembro o Banco do Brasil funcionando nos dois andares do seu prédio, as grandes filas e os muitos caixas, e na frente uma plaqueta próxima ao cruzamento com os dizeres: “Não corra, não mate, não morra”, da qual nunca esqueci. Do outro lado da rua, a moderna fachada do então Baneb (hoje Bradesco) contrastava com o estilo mais sóbrio do banco ao lado. No Baneb, de filas não menores, lembro das cadernetas de Poupança (eram cadernetas mesmo!), onde anotávamos todo mês os rendimentos da famosa “Poupança Baneb”. Tempos de inflação e desvalorização da moeda, quando os “porquinhos” não tinham vez. Na Rua do Ribeirão, lembro do estridente canto de uma araponga, que durante anos foi a trilha sonora dali. Lá estava o movimentado posto da Telebahia, onde três cabines telefônicas ligavam Amargosa ao mundo, amigos e parentes, como meus tios e suas filhas, que se falavam sempre aos domingos à noite. Mais adiante, ficava a Delegacia Educacional (antepassada da DIREC), em que minha mãe trabalhava, onde também funcionou o MEB, ao lado do silencioso Seminário Menor, que abrigou meu pai e lhe ofereceu fabulosa base educacional até a universidade: se ele fosse mais adiante nesse caminho, hoje eu não estava aqui... Não posso esquecer Dona Maria, sempre sorridente e serena, sentada na porta do Seminário, lembrando dos tempos de meu pai e seus colegas, entre eles Dom João Nilton. Em frente, a Sede Paroquial, palco de grandes festas, jogos na esquecida quadra dos fundos e, também, do primeiro estabelecimento no qual lecionei em Amargosa: um curso pré-vestibular idealizado e organizado pelos estudantes, que levou a maioria deles para as principais universidades do estado. Descendo mais um pouco, na famosa “Rua do Buraco”, está o Estádio Municipal, onde tive meu primeiro contato com uma partida de futebol de verdade, onde jogaram Vitória, Bahia, Seleção de Amargosa, entre outros, e onde ousei jogar em um campeonato de juniores, no distante ano de 1990, se não estou enganado. Em frente, a primeira locadora de vídeo da qual me lembro por aqui: a locadora de Jonga, através da qual descobri que os filmes que ainda não passavam na TV eram geralmente legendados, o que causava uma certa frustração. Indo em direção contrária, rumo à “Rua do Malmequer” (atual Gilda Ferreira), onde hoje estão a Creche Tia Rachelzinha e a UAB – Universidade Aberta do Brasil, ficava a AMEC, de Dr. São Paulo, a clínica mais movimentada da região. Ao lado, a Escola Criação, onde meu irmão estudou e de cuja equipe orgulhosamente hoje faço parte. Quase em frente, ficava o CEA – Centro Educacional de Amargosa, onde estudei por dois anos, antes de ir para o Santa Bernadete. Lembro-me do campo de terra ladeado por eucaliptos, onde atrás ficava uma plantação de mamona, munição para os recreios mais agitados, da casinha, da piscina, da quadra, dos corredores apertados e da cotadíssima casa na árvore. Subindo a rua, já na esquina, fica o Sindicato Rural, hoje aparentemente fechado, onde meu pai também trabalhou, e onde havia atendimento do dentista Fernando Paraguassu aos sindicalizados. Voltando em direção ao Jardim, lembro da Amavel, a primeira agência de venda de carros da cidade, ao lado do depósito do Olhepreço. De volta ao jardim, das indefectíveis esculturas verdes nos arbustos, do imponente obelisco, dos requisitados banquinhos onde tantos de nós deram seus primeiros passos nas armadilhas do amor, brilha o coreto. O irradiador de beleza, que presenciou tantos anos e tantos fatos da nossa história, que lembro ter sido palco de uma bela Orquestra Sinfônica nas comemorações do Centenário da Cidade, continua impávido e imponente, invisível para tantos que não reconhecem nele a sua importância, que não conseguem enxergar a sua beleza. À sombra do nosso “Partenon”, descanso de mais uma viagem, recobrando forças para mais andanças. Até a próxima!

terça-feira, 1 de março de 2011

Memórias de Amargosa - Parte 2




A viagem pelas minhas memórias de Amargosa continua. E retoma seu caminho justamente pela antiga Estação Rodoviária, que ficava no Bosque, no prédio da também antiga Estação Ferroviária. Eram os tempos da empresa de ônibus Viazul, com seus veículos “Bumerangue”, que traçavam os caminhos daqui a Salvador. Uma agência apertada dentro da velha estação, sem muito lugar pra sentar, dividindo espaço com um salão de beleza e uma emplacadora de veículos. Mais tarde a velha estação abrigaria também a Cesta do Povo e a Biblioteca Municipal, cuja sede original havia sido demolida junto com o Instituto Mauá e o Lions Clube, para dar espaço a um vazio utilizado quatro ou cinco dias por ano no São João. Lembro dos trilhos ainda cortando o Bosque, como uma herança da linha de trem que não cheguei a ver, uma frustração que nunca será compensada. Caso alguém ainda não saiba, essa linha batizou a famosa "Rua da Linha", que ainda hoje liga a região do Bosque à saída da cidade. Eu não nasci “há dez mil anos atrás”, mas estava na cerimônia de plantação do novo Jequitibá, logo atrás do hoje sumido “L” do Lions, que repousava sobre o tronco do velho Jequitibá, morto por um raio. Por falar em “sumiço”, do Bosque ainda me vêm à lembrança os bancos de pedra, disputados quase a tapa em dias de festa ou sábado à noite, quando a cidade se convergia para o agito da arborizada praça, cheia de pessoas e carros, com a presença destacada do quiosque da Ki-Delícia que depois virou Ramone Sorvetes. Quando criança, adorava ler o que estava escrito nos bancos, e chegava a saber boa parte dos benfeitores que haviam contribuído para o lazer coletivo dos amargosenses. Como não lembrar da Pizzaria Tropical, de Dona Valda e seu Cézar, que fazia encher a Pousada do Bosque aos sábados e domingos à noite? Uma pizza realmente maravilhosa, que começou a ser servida num espaço pequeno, na Avenida Abelardo Veloso, mas precisou ir para um lugar maior. Ali próximo, tempos depois, o “point” foi a Qui-Doce de seu Reizinho, com doces (pudera, né?), salgados e sucos para todos os gostos. Aliás, o Bosque sempre foi pródigo em oferecer à população de Amargosa as maiores atrações gastronômicas: prova disso foi o Berimbau, que reinou absoluto por ali durante anos, servindo um cardápio variado, mas na minha infância não havia outra coisa melhor: os sorvetes da Kibon, que no domingo à noite eram sempre muito bem vindos. Atrás da antiga estação, o destaque sempre foi a “Centflora Drinks”, ou o popular “Bar do Osmar”. Lembro de meus pais falando das noites de boate, do grande movimento de pessoas e eu correndo naquele grande salão cercado por mesas e cadeiras de madeira. Tempos do renomado Colégio Pedro Calmon, repleto de estudantes de Magistério e Contabilidade, que promoviam a cada fim de ano grandes festas de formatura, movimentando toda a cidade. O auditório do colégio já foi palco de inúmeros shows de calouros, desfiles de moda, festas de escola... E até hoje encontramos lá aquelas cadeiras daqueles tempos... Pertinho dali, não esqueço do armazém de seu Adelino Lourenço e seus Del-Reys, de que tanto gostava. Outro local de que não dá pra esquecer é o saudoso Alvorada Tênis Clube. Lembro das catracas que controlavam a entrada, do grande salão onde tantas vezes apresentei números para a escola, onde me “formei” em Alfabetização pelas mãos da pró Lígia, lembro dos shows, como o de Geraldo Azevedo, dos desfiles de miss e dos torneios esportivos que lotavam as acanhadas arquibancadas do velho clube. Vôo Livre, Moka, entre tantos outros times me impressionavam, quando o vôlei era preferência municipal. Anos depois, o clube, já em decadência, fechado, serviu de espaço para os “babas” de todas as tardes, nas férias, onde jogávamos descalços ao sol das três da tarde, causando grandes bolhas nos pés diariamente. Mas não desistíamos. A quadra era pequena, mas lisa, ótima para jogar, o grande problema era quando a bola caía do lado do Colégio Pedro Calmon. Por fim, marcante era para mim também a imponência dos velhos casarões da Suerdieck, que guardavam histórias de um tempo próspero e distante, enquanto eu jogava bola no pequeno jardim em frente ao “L” do Lions ou ia à academia de Pró Silvana ensaiar para as festas da escola. Ah, bons tempos! A memória vem aos poucos. Continuo tentando lembrar dessa terra querida, num tempo em que a noite era um perigo apenas para aqueles que tinham medo da escuridão. Mais lembranças virão por aí. Até a próxima!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Memórias de Amargosa





Memória é tudo o que resta quando mais nada parece fazer sentido. O problema é que neste país a memória é um artigo de luxo, e o passado vem sendo execrado e progressivamente destituído da memória popular graças aos arautos do futuro e a sua tecnologia consumista, que descartam os sopros do passado como se fossem inúteis e superados.
Portanto, apegando-me à memória da minha infância e juventude, e “pescando” nas famosas revistas que contam a história de Amargosa (é uma pena que boa parte do referencial histórico desta cidade esteja reduzido a isso...), resolvi escrever alguns textos em que vou desfiando o extenso novelo de minhas “memórias amargosenses”, regadas a flashes de memória e saudades, muitas saudades de tempos mágicos, coalhados de brilho e inocência, cheios de vida e tranqüilidade nas sombreadas ruas da Cidade Jardim.
Alerto aos desavisados leitores que não se trata de uma narração com um fluxo de tempo linear. Não: aqui tudo se dará pelo fluxo da memória, irregular e impreciso, portanto, em muitos momentos as lembranças viajarão anos, décadas, misturando lugares e personagens numa perspectiva pouco comum, mas espontânea. Boa viagem a todos nós!
Primeira parada: a praça do Cristo, ou melhor: a eterna praça da Feira. Em frente à delegacia, a feira de Melancias, que insistiam em rolar ladeira abaixo, junto também à feira do rolo, onde se trocava passarinho por bicicleta, rádio por canivete, quarta de farinha por jaleco de couro. Aquela feira na praça do Cristo era especial: aconchegante, barulhenta, mas de enorme dimensão: começava na delegacia e ia até à Caixa Econômica. Na parte de cima, a feira de roupas e confecções em geral, no meio, a feira da Carne, em baixo, frutas e verduras. No barracão em frente ao armazém de Josué, os sacos de farinha pintavam de branco o chão de calçamento. Ainda lembro da rua onde hoje é o calçadão: estreita e barulhenta, aos sábados era um milagre entrar de carro ali. Nessa rua ficava a sorveteria, não me lembro bem de quem era: a sorveteria Tropical. Lá também ficava o Frigoleite de seu Rufino e a locadora de Vídeos de Manolo, isso já na fase de Calçadão.
Não sei por que cargas d’água, mas sempre tive a impressão de que o Cristo da praça era virado pra outro lado, e já encontrei outros aloprados que comungam dessa idéia... Ali, na praça, na parte de baixo, ao lado da delegacia, ficava a Hits Brasil, loja de discos onde comprei meus primeiros LPs, isso, LPs! Foi lá que comprei o Quatro Estações do Legião Urbana. Adorava ficar olhando os discos e colocando-os pra ouvir na agulha da radiola. Lembro-me de tirar fotos lá em seu Nené, de tomar suco de coco no JequitiBar, ao som de Nelson Gonçalves. Como esquecer a Galeria Júnior e o salão de seu Agrimar, bem ali onde hoje Lula mostra seu talento hereditário na arte de cortar cabelos. Falando em galerias, lembro de El-Som, livraria onde minha mãe comprava os livros da escola, e que mais tarde serviria de alto-falante para a Jequitibá FM e os “recadinhos de amor” dos finais de tarde.
Ali perto, o armazém de seu Zé Bandeirante, onde se encontrava de tudo, a loja de confecções de seu Carlos “da Loja”, a Nunes Calçados e a boutique de dona Elza, que tinha as roupas mais descoladas da cidade. Ah... e como não lembrar das mensagens fúnebres do alto-falante das lojas A Boneca: até a voz do narrador era sinistra!
Ainda na praça, lembro do armarinho de Dona Marizete e da antiga Unilar, ao lado da DK-Um, a melhor padaria do universo!
Falando nisso a Dk-Um merece um parágrafo especial. Não exagero quando digo que era a melhor padaria do universo: tudo lá era mais gostoso (nunca um pão de sal com manteiga foi tão especial!), a própria padaria com seus armários de madeira tinha um aspecto aconchegante e tradicional. Todo dia, por volta das cinco da tarde, começava a luta pelos pães: pessoas e mais pessoas em busca dos seus pães, em sacos de pano que traziam de casa para o preço ficar mais em conta. Enquanto isso, Seu Arturzinho, Dona Diva, Diva, Oldack e Pisca tentavam atender a todos os esfomeados do crepúsculo. O café DK-Um também não tinha igual, e até a manteiga que eles vendiam parecia ser mais gostosa que as outras.
É preciso fazer justiça com as outras padarias, afinal neste quesito Amargosa sempre esteve bem servida: a Massa Real, de seu Zelito, a padaria de seu Jessé e a de seu Paixão, onde eu namorava os brinquedos nas vitrines de vidro e onde no Natal eu fazia a festa, realizando os desejos que Papai Noel não mais podia realizar. Tempo depois, também na praça, veio a Kivalle, a primeira delicatessen de Amargosa, sofisticada e com o melhor sonho que eu já comi em minha vida. Já era tempo da nova e bela praça do Cristo.
Ainda consigo sentir aquele maravilhoso cheiro de café torrado do Café Santa Graça, em plena praça no centro de Amargosa. Ali do lado estava a antiga sede da agência da Caixa Econômica, bem menor que a atual, e onde por algum tempo funcionou a Prefeitura Municipal, quando da reforma do prédio original, na última gestão de Josué Melo como prefeito. Ali perto, a insuperável Farmácia do povo, de seu Zé “da Farmácia”, a farmácia Luciane de seu Nelito e as lojas A Boneca de seu João Ângelo.
Bom, meu trem da memória para um pouquinho pra recuperar as forças, quer dizer as memórias. A próxima viagem, no entanto, não tarda em começar...